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Viver com PHDA (ou ADHD, essa sigla da moda)

Sei que nessas alturas devia ir ao ginásio, mas sinto que não posso porque não terminei o que estava a fazer e acabo a comer demais, a olhar demais para o telemóvel, a ver metades de episódios de séries na TV e a pensar demais em sexo. Isto já durou vários dias. Torna-se um pesadelo do qual não consigo acordar.


 

ADHD, essa sigla da moda. PHDA em português, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção. Eu já tinha ouvido falar aqui e ali, era aquilo que os miúdos às vezes tinham, que não conseguiam estar quietos e reprovavam muito na escola…, mas que depois passava. Não sei se foi no confinamento ou se foi só o algoritmo, mas nas redes sociais comecei a apanhar montes de posts sobre o tema, com “lifehacks” e “the secrets to being good with…” e essas coisas todas. Comecei a prestar atenção, depois comecei a ler mais sobre o tema, porque muito daquilo me parecia fazer sentido.


Depois comecei a perceber que isto é uma coisa que não desaparece na vida adulta, aliás em muitos casos só fica pior e a parte da agitação motora, o ser irrequieta, é a parte menos importante (pelo menos para mim).

A mim nunca me disseram que eu tinha PHDA quando era miúda, acho que nem saberiam o que é que isso era. Mas apanhei com o resto, chamavam-me preguiçosa, diziam-me que eu tinha “muito potencial”, mas que não me esforçava, que não queria saber, que me distraía muito. Depois apanhava uma matéria mais engraçada e tirava nota máxima e logo a seguir voltava a perder o interesse e fazia os mínimos para ir passando.


Para mim a escola ou era demasiado fácil e eu achava que alguma coisa estava mal porque via toda a gente com dificuldade, ora era uma coisa que simplesmente não me fazia sentido, ou seja, eu nem percebia o porquê de estarmos a estudar certas coisas, quanto mais sentir-me capaz de fazer um esforço para as compreender. Se eu não tiver contexto não consigo focar-me numa coisa. Se eu tiver de estudar toda a estrutura de um carro e perceber como é que tudo funciona, ok vamos lá, mas se me disserem para estudar cada parafuso e componente em separado então nem vou começar.





Enfim, tantos pequenos episódios que perdi a conta. Vou descrever como é que isto é enquanto adulta. Nas alturas em que está pior, em que ando a dormir mal ou ando stressada com alguma coisa, tento concentrar-me num tema, numa tarefa e sinto que começa logo um relógio a contar. Ou faço isto depressa ou a oportunidade perde-se, é como se eu visse com clareza o centro da imagem daquilo em que quero pensar, mas à volta há uma “neblina” e essa neblina faz-me ficar ansiosa, por isso tento concentrar-me nela, mas perco o foco daquilo em que estava a pensar e por isso volto atrás, mas agora há menos área nítida, há mais neblina.


Isto fica pior até eu desistir e ir fazer outra coisa. Nos dias piores tenho tantos assuntos e tarefas abertas que não acabei que tenho crises de ansiedade… Depois preciso de um escape, um alívio, qualquer coisa.

Sei que nessas alturas devia ir ao ginásio, mas sinto que não posso porque não terminei o que estava a fazer e acabo a comer demais, a olhar demais para o telemóvel, a ver metades de episódios de séries na TV e a pensar demais em sexo. Isto já durou vários dias. Torna-se um pesadelo do qual não consigo acordar.


Os amigos e família não ajudam muito, dizem-me “então, mas vai lá terminar isso!”. Como se eu não estivesse já a tentar com todas as minhas forças!?!? Depois ficava tudo demais e sinto-me a ficar deprimida.

Felizmente já não tem sido assim, passei por vários(as) terapeutas que mais ou menos me ajudaram, mas depois consegui trabalhar com alguém que percebia disto. Foi um alívio tão grande! Consegui finalmente separar aquilo que vinha disto, do PHDA de tudo o resto, as coisas boas e más que passei na vida e que me moldaram, finalmente deixou tudo de estar embrulhado sem princípio nem fim. A medicação é muito útil, mas fui descobrindo outras formas de me gerir, foi bom saber que há sempre mais do que um caminho. É claro que há sempre curiosidade e vontade de conhecer-me mais, mas poder fazer isso em paz é algo que durante muito tempo nunca pensei ser possível.



[Este testemunho é inventado, criei esta personagem com base na minha experiência clínica com pessoas com PHDA. É um tema complexo com muitas ramificações que é possível tratar.]



Psicólogo Clínico RUMO


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