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O tempo, o agora e suas definições

O trabalho do aqui-e-agora é a principal forma de descobertas e revelações em uma terapia, pois aqui-e-agora significa conectar-se ao momento presente, aos eventos imediatos do encontro terapêutico na hora mesmo em que acontecem.


 

Muito pouco se tem falado a respeito do momento presente dentro de um ambiente terapêutico. Todas as experiências do cotidiano se passam no aqui-e-agora, em uma fração de tempo praticamente incomensurável do ponto de vista matemático-temporal. Todavia essas experiências que se acumulam uma após a outra num frenesi incessante é que formam o sujeito e criam a sensação de tempo retilíneo e linear.


Para Daniel Stern: “primeiro estamos subjetivamente vivos e conscientes apenas AGORA. E AGORA é quando vivemos nossa vida diretamente. Em tudo mais há uma separação de segundo ou terceiro grau. A única hora de realidade subjetiva crua, de experiência fenomenal, é o momento presente.” Desse ponto de vista é imprescindível nos questionarmos sobre o pouco uso do momento presente dentro da psicologia apesar de vários terapeutas concordarem que o trabalho focado no aqui-e-agora tem um poder enorme de provocar mudanças, como afirma Daniel Stern: “a maioria dos terapeutas concordam em que o trabalho terapêutico no aqui-e-agora tem maior poder de provocar mudanças. Isso significa onde e quando se dá um contato mutuamente consciente entre a mente do terapeuta e a do paciente. Além disso, nos relacionamentos cotidianos, os eventos nodais que alteram o curso de vida normalmente ocorrem num momento que é experimentado como chave, não só depois que aconteceu, mas também enquanto está ocorrendo.”


Um dos motivos para a pouca ou quase nenhuma utilização do momento presente na psicoterapia é que esse momento do aqui-e-agora é inapreensível através do uso da razão, é ação puramente do ser, vivencial. O paradigma vigente, reducionista e mecanicista, entenda-se por reducionista a ação de investigar a menor unidade formadora de determinado objeto, pelo fato de privilegiar o uso da razão constrói seus argumentos com base em uma dinâmica temporal-causal, ou seja, “isto” é a causa ou consequência “daquilo”. Para Hugo Rodrigues “estamos todos impregnados com essa necessidade de explicações exclusivamente racionais para lidar com as coisas de uma forma mecanicista.”. “Isto” acontece em algum momento anterior ao “daquilo”, ou seja, os eventos estão em uma ordem sequencial, criando assim uma noção lógica linear de tempo. “Isto” representa o passado e “daquilo” representa o futuro.






A própria noção do “tempo passar” cria uma ideia de que o tempo partiu de algum lugar ou momento e começou a viajar deixando para trás o passado e avançando em direção ao futuro. Esse paradigma utiliza-se do “porque” como arma para dar explicações a todos os fenômenos, há nele uma necessidade de buscar um modelo explicativo para tudo. Para Hugo Rodrigues “o porquê ata os eventos. Como engrenagens de uma máquina: você vê a primeira que transmite uma rotação e um sentido para a segunda engrenagem, que já transmitirá para outras, e assim por diante…”.


Em geral as psicoterapias ocidentais têm seu foco no passado, como assumindo um papel fundamental na determinação do presente, estando dessa forma no centro do palco terapêutico. O momento presente assume, então, um valor irrisório do ponto de vista terapêutico, ou seja, é um coadjuvante na ação de mudança. Mas segundo Daniel Stern: “sabemos muito sobre como eventos passados influenciam a experiência atual. Mas não prestamos a mesma atenção à natureza da experiência atual quando ela está sendo influenciada e está acontecendo.


Como ficariam a psicoterapia e a mudança terapêutica se o momento presente assumisse o centro do palco?

Mas como definir o momento presente para trabalharmos dentro da terapia? Dentro da psicoterapia o momento presente é considerado como os menores aglomerados de experiência psicológica que tem sentido clinico e como unidades para se trabalhar o processo terapêutico. Para Daniel Stern: “uma das ideias de maior alcance é a proposta para que vejamos as relações humanas intimas e a psicoterapia num micronivel feito de momentos que ocupam um agora subjetivo- o que chamamos de momentos presentes.


Em termos fenomenológicos, consideramos os momentos presentes como os menores aglomerados de experiência psicológica que tem sentido clinico e como as unidades básicas para examinar o processo terapêutico. O momento presente é visto como o material vivido do qual verbalizações, interpretações, representações, generalizações e metapsicologia são abstrações derivadas.” (Stern, 2007).


A psicoterapia é um espaço de diálogo, encontro e de ressignificação através da linguagem e suas construções. Nesse sentido a relação terapêutica, ou interação entre paciente e terapeuta se torna uma rica e importante fonte de informações que os pacientes transmitem sem se darem conta de que o estão fazendo, através de gestos, ações, reações, risadas, choro, modo de cumprimentar, comentários a respeito do espaço terapêutico enfim uma série de pistas que nos ajudam a conhecer e nos conectar com o paciente e estabelecer a diretriz do trabalho.


Portanto o trabalho do aqui-e-agora é a principal forma de descobertas e revelações em uma terapia, pois aqui-e-agora significa conectar-se ao momento presente, aos eventos imediatos do encontro terapêutico na hora mesmo em que acontecem.

O fato de focar no momento presente e deslocar a atenção do passado não nega a devida importância, por isso é uma abordagem não histórica, mas que invariavelmente trabalha questões do passado do paciente, pois trata o comportamento que outrora foi aprendido em algum momento de vida. Para Hugo Rodrigues “... em cada momento presente, temos conosco todas as nossas marcas, tudo o que vivemos, todas as nossas experiências, sensações, tudo... Somos um registro vivo de nossa própria vida.” ( Rodrigues, 2000).


A base de uma boa terapia está na relação terapêutica. A boa terapia se desenrola num enquadre clínico com um vínculo que favorece este processo. Aí está um dos segredos desta arte e ciência: criar um ambiente que permita a revelação do mundo interno, favoreça a troca dialógica, a construção de novos significados e o desenvolvimento do processo singular de cada um.


O aqui-e-agora como recurso terapêutico


Para Frederick Perls um dos criadores da gestalt-terapia o aqui-e-agora é como um Koan, ou seja, um enigma zen budista que não tem solução. Perls faz a seguinte colocação: “nada existe a não ser o aqui e agora. O agora é o presente, é o fenômeno, é o que você percebe, é o momento no qual você carrega consigo as suas assim chamadas memórias, as assim chamadas antecipações. Seja lembrando ou antecipando, você o faz agora. O passado não é mais. O futuro ainda não é. Quando eu digo “eu fui”, não é agora, é o passado. Quando eu digo “eu quero” é o futuro, ainda não é – nada pode possivelmente existir exceto o agora.” (Perls, 1976) Então como resolver esse dilema?


Para Perls toda vez que nos lembramos ou antecipamos algo fazemos isso no agora. O agora é o ponto de sustentação, o ponto zero, o nada, tudo se desfaz nele e tudo acontece nele. No momento exato em que experiencio algo e então falo sobre ela e presto atenção, esse momento de vivencia já se foi, o presente já se foi. Algo novo surge. Quando você traz a tona suas lembranças ou memórias, você as faz no momento presente com tudo que o momento oferece, e para Perls lembranças são abstrações, as lembranças nunca serão idênticas à realidade vivida. Sempre abstraímos a gestalt relevante do contexto global, ou seja, nunca experienciamos tudo ao nosso redor. Sempre algo é acrescido às nossas lembranças a medida que vamos vivendo.


Para o ponto resolução deste conflito consiste em trabalhar com duas bases: o aqui e como. O agora engloba tudo. O passado já foi e o futuro ainda não é. "Agora" inclui o experienciar, o fenômeno, a consciência presente. O "como" engloba tudo o que é estrutura, comportamento, tudo o que realmente esta acontecendo: o processo. Para Perls: “tudo esta na tomada de consciência. A tomada de consciência é a única base do conhecimento, comunicação, e assim por diante.” (Perls, 1976). Enfim o aqui-e-agora é sempre uma tomada de consciência do momento presente.


O aqui-e-agora é o principal recurso terapêutico.

Ele se refere aos eventos e acontecimentos da hora terapêutica no momento mesmo em que acontecem, ou seja, no momento presente da relação terapêutica, “é a principal fonte de poder terapêutico, a recompensa da terapia, o melhor amigo do terapeuta (e consequentemente, do paciente).” (Yalom, 2006). Trata-se, sobretudo da relação como principal fonte de informação que o paciente nos fornece. Esse recurso terapêutico evita o problema muito comum de pensarmos que vivemos e na realidade não vivemos, quando tendemos a substituir nossa experiência por explicações da experiência, trocamos fatos vividos por discursos proferidos.


Usando o aqui-e-agora


Para se trabalhar com o aqui-e-agora é importante identificar os correspondentes dos problemas interpessoais na relação terapêutica. Segundo Irvin D. Yalom: “um dos primeiros passos na terapia é identificar no aqui-e-agora os equivalentes dos problemas interpessoais do seu paciente. Uma parte essencial do seu aprendizado é aprender a se concentrar no aqui-e-agora. Você precisa desenvolver ouvidos afiados para o aqui-e-agora. Os eventos cotidianos de cada hora terapêutica são ricos em dados. Considere a maneira como os pacientes o cumprimentam, sentam-se, inspecionam ou deixam de inspecionar o ambiente, começam e terminam uma sessão, voltam a contar sua história, relacionam-se com você.”


Todos os pacientes são de uma maneira ou outra submetidos aos mesmos estímulos, e esses estímulos geram diferentes reações em cada paciente. Os eventos da hora terapêutica são riquíssimos em detalhes acerca da personalidade do paciente. Segundo Yalom: “para cultivar ouvidos afiados, lembre-se sempre deste princípio: um estímulo, muitas reações. Se os indivíduos forem expostos a um estímulo complexo comum, é provável que apresentem respostas bem diferentes.


Esse fenômeno é particularmente evidente na terapia de grupo, na qual membros do grupo vivenciam simultaneamente o mesmo estímulo — por exemplo, o choro de um membro, um atraso na chegada ou o confronto com o terapeuta — e, ainda assim, cada um deles tem uma resposta bem diferente frente ao acontecimento. Por que isso acontece? Existe uma única explicação possível: cada indivíduo tem um mundo interno diferente, e o estímulo tem um significado diferente para cada um.”


Outro instrumento poderoso para identificar os correspondentes dos problemas interpessoais do paciente no aqui-e-agora é o próprio self do terapeuta. Os próprios sentimentos são uma fonte riquíssima de trabalho e nos fornece pistas essenciais sobre o cliente. Os sentimentos que surgem no relacionamento entre paciente e terapeuta na hora terapêutica servem como norteadores de possíveis rumos a serem tomados na terapia. Mas é preciso estar muito atento para saber discernir com precisão quais sentimentos são seus e quais sentimentos são evocados pelo paciente.


Se os sentimentos forem evocados pelos pacientes é seguro supor que também desperta esses sentimentos em outras pessoas e em outros lugares. Para que essa distinção seja feita com a qualidade e clareza é necessário que o próprio terapeuta faça terapia. Os próprios sentimentos são uma fonte inigualável de riqueza terapêutica, mas é preciso saber manejá-los com sabedoria. Uma pergunta fundamental para a revelação do próprio sentimento deve corresponder a uma única exigência: a revelação de tal sentimento vai beneficiar o paciente? Se você sentir que sim então ótimo, não hesite em fazê-lo, mas se a resposta for não, guarde o pensamento para você.


Em relação a esse assunto Yalom é bem preciso: “para você estabelecer um relacionamento genuíno com o seu paciente, é essencial revelar seus sentimentos pelo paciente no presente imediato. Mas a revelação do aqui-e-agora não deve ser indiscriminada; a transparência não deve ser buscada como um objetivo em si mesmo. Todos os comentários devem passar num único teste: essa revelação é para o melhor interesse do paciente? Muitas e muitas vezes, enfatizarei neste texto que a fonte mais valiosa de dados são os seus próprios sentimentos. Se, durante uma sessão, você sentir que o paciente está distante, tímido, insinuante, desdenhoso, com medo, contestador, infantil ou exibe qualquer um de uma infinidade de comportamentos que uma pessoa pode ter com uma outra, estes são dados, dados valiosos, e você precisa descobrir um modo de transformar essa informação em vantagem terapêutica.”



Psicólogo Clínico RUMO


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