top of page
  • Foto do escritorRUMO

Há três dias foi Dia Mundial da Saúde Mental... E hoje que dia é?

Então, há três dias celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Ou melhor, assinalou-se, porque de celebração, até ver, não me parece que exista o suficiente ainda. Antes pelo contrário. Se não vejamos, numa lente mais microscópica, e olhando apenas para Portugal.


Portugal é o país da Europa onde são consumidos mais antidepressivos. Em Janeiro deste ano, um relatório do Infarmed relatava que nos primeiros nove meses do ano de 2021, quase 16 milhões de embalagens de medicação associada à saúde mental tinha sido vendidas.


Feitas as contas, estamos a falar de um investimento do Estado de 46M€. Nos primeiros seis meses de 2022, este valor já está perto de 33M€, num total de quase 11 milhões de embalagens de ansiolíticos, sedativos e antidepressivos.
É caso para dizer: é muito comprimido.

Mantendo uma atitude de não menosprezar a complementaridade da aplicação da medicação psiquiátrica, não seria caso para me assustar com estes números e com tamanho investimento, não só por quem compra os mesmos, mas também pelo SNS, se lesse depoimentos como os referidos pelo Ministro da Saúde Manuel Pizarro diferentes do que li no Dia Mundial da Saúde Mental.

Vejamos, nas declarações, o Ministro referiu, entre várias coisas, que "Nós não podemos manter um certo estigma sobre a saúde mental como se o tratamento das perturbações de saúde mental seja um exclusivo de profissionais ultra especializados", referindo-se neste caso, diria a profissionais da área da saúde mental como psiquiatras, pedopsiquiatras e psicólogos/as. O Ministro continuou ainda dizendo que “Não faz nenhum sentido imaginar que quem tem uma perturbação do foro da saúde mental tenha sempre que ser visto por um especialista mais qualificado”. Nos meios de comunicação, surgem ainda referências que aludem a ilustrações de Manuel Pizarro como por exemplo “não passaria pela ideia de ninguém” que um hipertenso tivesse que ser tratado por um cardiologista ou por um internista, ou que alguém que tivesse uma dor de barriga, tivesse que ser visto por um cirurgião”.

E aqui é que – perdoe-se a expressão popular – a porca torce o rabo. Porquê? Ora porque os/as profissionais que atendem este tipo de condições que terão sido ilustradas pelo Ministro da Saúde, são especializados, normalmente profissionais da área da medicina com uma especialidade, neste caso Medicina Geral e Familiar. E dos que conheço e até sou amigo, sabem muito bem o que estão a fazer, e confidenciam muitas vezes a impossibilidade de ter mais tempo de consulta, a necessidade de ter mais profissionais – especializados – da área da saúde mental com quem possam trabalhar em vez de referenciar os seus utentes num determinado centro de saúde para um profissional que exerça a sua profissão em contexto privado.

Passaram três dias desde o Dia Mundial da Saúde Mental. Parece pouco tempo. Mas passaram 5 anos, ou seja, 1800 dias (mais coisa menos coisa) desde que abriu o último concurso de integração de profissionais da área da psicologia no SNS.
É caso para dizer. É muito tempo.

A espera de uma consulta para psicologia é em média acima dos 3 a 4 meses. A espera para comprar uma caixa de ansiolíticos na farmácia é em média 3 a 4 minutos. Fica fácil de observar que é muito mais simples optar pela segunda opção do que pela primeira enquanto cliente/utente/paciente/doente (o que lhe quiserem chamar), e isso não será pela falta de vontade ou investimento em si, mas obviamente porque a sintomatologia que se sente é extremamente bloqueante, sem contar que a mesma continua a ser acompanhada de estigmatização social, incompreensão e não raras vezes soluções providenciadas por profissionais com muito boa vontade mas que também estes/as se encontram em burnout – como é observado nos profissionais de saúde em instituições públicas em vários países (Portugal aqui é só mais um).

Não me parece haver uma solução perfeita. Aliás, diria mesmo que o fortalecimento da área da saúde mental será sempre um work in progress que ganhou destaque após a pandemia do covid-19, nomeadamente para determinadas gerações da nossa sociedade.Há algumas coisas que podem ser pensadas pelos vários stakeholders. Não sou perito em políticas de saúde, mas darei a minha opinião:


  • Ao nível público acredito que deveriam ser encontradas outras soluções que não apenas fortalecer o consumo de medicação psiquiátrica para casos que talvez não precisem tanto desta, ou durante tanto tempo, é fundamental. Observe-se os valores que foram referidos no princípio deste texto. Os 33M€ que já foram gastos este ano dariam para liquidar as despesas de quase 900 profissionais com um ordenado médio. Obviamente que destes 30M€ que o SNS pagou sobre aquisições de medicação psiquiátrica, haverá uma boa percentagem que tem de continuar a acontecer, mas façam-se as contas de forma a pensar a longo prazo e não a curto prazo – este que é o maior problema de se pensar políticas públicas -, é que a comunidade política que colhe os louros raramente é a mesma que os desenhou.


  • No sector privado, as organizações precisam de escutar as suas Pessoas. Mesmo que isso signifique encontrar resultados que abalem posições de rankings identificados nos típicos healthy workplaces ranks. Uma ilustração é o típico webinar sobre saúde mental. Já existem piadas com este tipo de solução, que claramente não foi desenhado com as pessoas de determinada organização. Não há soluções perfeitas, mas um bom primeiro passo poderá ser uma avaliação de determinados factores de riscos e psicossociais que, profissionais de saúde mental (com experiência em saúde ocupacional/organizações), saberão identificar e avaliar. Levar profissionais externos, num determinado momento, poderá ser uma boa solução, uma vez que os temas associados às vulnerabilidades da saúde mental são muitas vezes difíceis de reportar internamente.


  • Na sociedade civil é importante que todos/as possamos retribuir com algo. Na RUMO, para além do conteúdo psicoeducativo gratuito, uma das formas que temos de o fazer, é através de valores sociais e/ou pro-bonos que, em determinados momentos, conseguimos oferecer a pessoas que não têm possibilidade de adquirir serviços de saúde mental em contexto privado e que não têm capacidade de esperar meses por uma consulta no serviço público.

Haveria muito mais por dizer, mas deixemos outros temas para outras ocasiões, afinal o Dia Mundial da Saúde Mental foi apenas há três dias e ainda temos muitos mais dias pela frente.


Psicólogo clínico

bottom of page